Os mil e um porquês do LRF

O LRF não é tão fácil como possa parecer, principalmente na hora de escolher o equipamento necessário. Os alvos são todas as espécies, cada uma com as suas preferências alimentares, cada uma com as suas preferências em termos de pesqueiros, enfim, cada uma com as suas especificidades.

Neste aspecto tenho tido a vida um pouco facilitada, pois são espécies com as quais tive contacto logo nos tempos de miúdo, quando me iniciei nestas coisas da pesca. A diferença é que agora uso iscos artificiais para a sua captura.

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Sobre os pesqueiros não me vou pronunciar, por duas razões. Primeiro, porque na minha opinião o pesqueiro terá pouco a ver com a escolha do equipamento pelo menos de uma forma significativa e em segundo lugar porque francamente não tenho uma definição de LRF quanto ao pesqueiro. Há no entanto espécies com maior probabilidade de serem encontradas em praias em que o fundo alterna entre areia e pedra, e outras que aparecerão mais em fundos bastante rochosos e por vezes até, a partir de certas profundidades. Mas se uma praia tem um fundo sem uma única pedra podemos afirmar que estamos a pescar em LRF ? Afinal o “R” vem de “Rock” (pedra). Enfim, isto daria uma daquelas conversas em que mais parece que estamos a discutir “o sexo dos anjos”. No entanto, tenho especial preferência por pesqueiros de rocha, dentro e fora de água e com alguma profundidade.

Deixando de lado os pesqueiros, falemos do peixe, Esse sim, quanto a mim, o centro de tudo. São as espécies alvo, que vão definir que características pretendo eu que estejam presentes no meu equipamento. Algumas escolhas menos pensadas poderão mais tarde, já em plena pesca, traduzir-se numa enorme frustração devido a variados factores. Um grande número de ferragens que não se chegam a concretizar, ou, peixe que desferra mesmo aos pés são só algumas consequências de escolhas mal pensadas.

Muitas vezes atiramos as culpas de tudo, ao equipamento, mas quantas vezes o problema não começa logo nas escolhas que fazemos?

Divido as espécies alvo em dois grupos, consoante as características da zona da boca. Peixes como pequenos robalos, bailas, cavalas e carapaus têm uma característica em comum, a enorme quantidade de pele em redor da boca. Peixes como o bodião, caboz, judia, pequenos sargos, safias, garoupas da pedra, badejos e rascassos, são peixes de boca mais carnuda e alguns com boas “dentuças”.

Sirvo-me destes factos para determinar se a cana deverá ter uma acção mais lenta ou mais rápida. Bocas mais frágeis necessitam de canas mais macias (lentas), em que o poder de ferragem não tem tanta importância como tem o tentar impedir que o anzol acabe por rasgar a boca do peixe e este escape. Bocas mais carnudas necessitam de uma cana mais rija com boa capacidade de ferragem já que um peixe destes dificilmente irá fugir por cedência da sua carne, quando a ferragem é feita eficazmente.

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Geralmente os peixes como os robaletes, bailas, cavalas e carapaus, não são peixes que se fixem durante muito tempo numa zona do pesqueiro e se agora estão mesmo à nossa frente, passados poucos minutos podem estar afastados mais alguns metros, algures. Daí que as amostras que uso para estes peixes e que geralmente procuro nas praias, sejam os jigs e os vinis entre as sete e as dez gramas (já incluindo o cabeçote ou outro tipo de lastro no caso dos vinis). São amostras que permitem explorar rapidamente determinada zona e ao mesmo tempo atingir distâncias bastante razoáveis. Não uso mais do que as dez gramas na montagem visto ser este o limite que defini para o uso das técnicas do LRF.

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Os restantes peixes são mais territoriais, geralmente habitam um abrigo no meio da zona rochosa e podem na generalidade das vezes, ser capturados aos nossos pés. Julgo que essa probabilidade aumenta com o aumento da profundidade. Não é prioritário atingir grandes distâncias no lançamento e devido a usar técnicas bem mais lentas na animação do isco, que nem sempre é necessária, vou necessitar de uma cana ainda mais ligeira e mais sensível. Não se compara a sensibilidade necessária para sentir os ligeiros toques de um caboz e o ataque duma cavala a um jig de passagem. Daí que para estes peixes “mais da rocha”, vou precisar de uma cana capaz de lançar até às cinco ou sete gramas, e de preferência que tenha uma ponteira maciça, as chamadas “solid tip”, que dá uma maior sensibilidade para os discretos toques de algumas espécies. São também caracterizadas por terem acção rápida ou ultra-rápida.

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Por tudo isto, penso que em termos de cana, será necessária não uma, mas duas. Uma de ponteira tubular, com um CW até às dez gramas e com uma acção mais parabólica para pescar em praia ou noutro tipo de pesqueiro a espécies como robalos, bailas, cavalas e carapaus. E outra com CW até a um máximo de sete gramas, do tipo “solid tip” e com uma acção mais de ponteira. Outra vantagem das canas mais rijas em pesqueiros em que o fundo tem muita pedra é o de controlar mais o peixe para o impedir de se abrigar em algum buraco, dando a sensação por vezes de termos “enrocado”. Em qualquer  um dos casos as canas terão normalmente entre 180 e 210 cm, podendo em alguns casos chegar aos 240 cm.

Como de canas nada mais tenho a dizer, deixando a qualidade dos componentes (passadores e porta-carretos) ao critério de cada um, vou agora falar do carreto.

O carreto é algo que também requer muito cuidado na sua escolha. Comecei com um carreto da Daiwa tamanho 2500 que corresponde a algo entre os tamanhos 3000 e 4000 da Shimano. Depressa concluí tratar-se de um tamanho exagerado para este tipo de pesca. Tanto que hoje é o carreto que uso na pesca aos robalos sem sentir qualquer limitação pelo seu tamanho.

As técnicas que se usam em LRF requerem carretos pequenos que na minha opinião não devem ultrapassar o tamanho 2000 (e daqui para a frente estarei a referir os tamanhos Shimano) e mais usualmente o tamanho 1000.

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Um carreto como um 3000 recolhe uma grande quantidade de fio, o que torna muito mais difícil as animações mais lentas, que exigem toques de ponteira de muito pequena amplitude e que implicam por isso recolhas mínimas do fio. Se considerarmos que o pesqueiro tem uma profundidade considerável e/ou que o nosso “artificial” se encontra a alguma distância, temos uma tarefa bastante complicada pela frente. Na imagem é possível verificar a diferença bastante grande entre um carreto tamanho 1000 e o daiwa 2500 com que comecei a esta pesca.

Sempre ouvi dizer que um carreto rápido pode ser rápido ou lento mas que um carreto lento será sempre lento. O que posso dizer é que se há algo que torna a pesca mais complicada, é passar três ou quatro horas a controlar a recolha do fio com base na velocidade com que rodamos a manivela em vez de ser o carreto a estar encarregue disso sendo de um tamanho mais reduzido rodando nós a manivela de uma forma mais natural.

Uma das maiores dificuldades é quando após lançar por exemplo um pequeno jig a alguma distância, e após o deixarmos descer para uma profundidade considerável, iniciamos a recolha de maneira a que o jig se mantenha o mais próximo possível do fundo. Qualquer aumento brusco da velocidade de recolha do fio, irá fazer o jig subir bastante na coluna de água, afastando-nos bastante do nosso objectivo de capturar uma espécie que habite mais perto do fundo.

A diferença entre optar por um tamanho 1000 ou 2000 para mim está relacionada com a altura do pesqueiro, sendo que para pescar ao nível da água acho o tamanho 1000 mais adequado, enquanto para situações em que tenho que recolher fio com o peixe a peso por nem o xalavar alcançar a água, considero o tamanho 2000 uma melhor opção.

E como um carreto com a bobine vazia de nada serve, é preciso colocar-lhe um fio. Opto por usar sempre multifilamento devido à relação diâmetro/peso. É assim possível ter na bobine do carreto um fio com um diâmetro extremamente reduzido de 0.06 ou 0.08mm e estarmos perfeitamente seguros que seremos capazes de recolher até nós qualquer peixe alvo do Light Rock Fishing. Qualquer fio nos diâmetros anterirmoente mencionados  terá uma resistência de 3 a 4kg, mais que suficiente para os nossos “pexécos”.

O multi filamento tem algumas vantagens no seu uso pelo seu reduzido diâmetro, sendo as mais notórias os ganhos na distância de lançamento e um trabalhar mais natural dos iscos artificiais que utilizamos.

Estas três componentes de que falei anteriormente são aquelas mais importantes quanto a mim, cana, carreto e fio. De resto são componentes alguns deles opcionais, como “leader” e “snaps”, e amostras que obedecem às regras já descritas anteriormente, pesos e tamanhos extremamente pequenos para peixes a condizer.

Para o “leader” uso um fluorcarbono 0.20 ou 0.25mm. Uso o 0.25mm principalmente em pesqueiros altos, em que o peixe é levantado a peso e por vezes bate na pedra. Fora essa situação o 0.20 é suficiente. Claro que pode acontecer vir por exemplo um robalo que parte o “leader”, mas os grandes exemplares são a excepção do LRF. Uso sempre “leader” pois sem dúvida é de mais fácil manuseio do que o multi filamento.

Os “snaps” são outro acessório opcional. Opto por usar sempre que possível, excepto se é uma montagem que não permita o seu uso ou se não os tenho disponíveis em tamanhos adequados. Nesse caso prefiro ter um pouco mais de trabalho a ligar directamente a amostra ao leader, do que usar por exemplo um “snap emprestado” da pesca aos robalos.

Em termos de iscos artificiais para esta pesca uso jigs, colheres e vinis de vários tipos. Não uso jerks. Isto porque gosto de pesqueiros com alguma profundidade e capturar o peixe junto do fundo.

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Em termos de jigs e colheres pouco tenho a dizer, uso-os geralmente quando existe muito vento, quando preciso de alcançar maiores distâncias ou quando no pesqueiro existem espécies que danifiquem bastante os vinis, como por exemplo cavalas que depois de três ou quatro conseguem deixar um vinil pronto para o lixo.

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A minha paixão nesta pesca é mesmo a pesca com vinis e em termos de iscos artificiais é sobre eles que serei mais detalhado. Pesco normalmente com shads, swimbaits, worms, e vinis tipo Marukyu e Gulp sandworm. Uso estes vinis montados num cabeçote com anzol, montagem Texas e também em Drop Shot.

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Em termos de lastro tenho três tipos: chumbada furada em forma de bala, chumbada furada em forma de esfera e chumbada fendida também em forma de esfera. Uso cada tipo dependendo da situação. Por exemplo, uma chumbada redonda terá uma queda mais lenta do que uma em forma de bala, enquanto uma chumbada fendida que irá fixa na linha provocará maior acção no vinil ao fim de cada toque de ponteira do que uma chumbada furada que desliza livre no fio, pois com esta o vinil tendo mais volume ficará para trás e cairá lentamente independentemente da chumbada que entretanto já abrandou ou parou no fundo.

Por coincidência, também uso três tipos de anzóis, mas nada tem a ver com o  facto de usar três tipos de lastro. Assim, uso usualmente os “wide gap”, “offset” e simples anzóis de olhal para os “drop shots”. Claro que todos estes anzóis são em tamanhos pequenos, adequados ao tamanho de vinis e boca dos peixes.

Por tudo isto, é fácil concluir que o LRF não é diferente de outras pescas. Tem as suas especificidades, uma grande quantidade de possíveis espécies a capturar, numa  grande variedade de pesqueiros. Não nos devemos guiar apenas por aquela vontade de experimentar pescar de uma forma diferente, na hora de adquirir o equipamento necessário, e devemos sempre lembrar-nos que…

Na hora de escolher o equipamento, é o peixe quem manda mais!

 

 

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