Pescar de noite… pescar devagar

Quando comecei a pescar com iscos artificiais, tinha como alvo os robalos. E se há grande acordo nesta pesca é que as melhores horas são entre alguns momentos antes do pôr do sol até alguns momentos depois do nascer deste. Claro que, pescar um robalo em pleno dia, com o sol já alto é possível e apresenta um óptimo desafio a quem persegue esta espécie.

A acrescentar há ainda o facto de ter começado esta pesca, já pai de uma criança e à qual se viria a juntar uma nova alegria à família uns meses depois, o que me fez deixar a pesca com amostras suspensa por dois anos ainda mal tinha começado.

Com a família aumentada, tornei-me assim um “pescador morcego”.

Hoje em dia, vou por vezes fazer pôr do sol, mas apenas para matar saudades. As minhas pescas iniciam-se assim, na maioria das vezes a meio da noite, enquanto a família dorme, em que saio de “mansinho” quase como quem vive uma vida dupla, tentando não acordar ninguem lá em casa, ou algum vizinho com o sono mais leve.

E assim vou conciliando a pesca com a vida familiar, e nem mesmo nas férias as coisas são diferentes, continuando o despertador a ser o companheiro das madrugadas e acordando-me a meio da noite para começar mais um dia que “dê para todos” com pesca e praia para toda a família.

E agora que já falei do que me levou à “morcegagem”, um pouco da pesca na prática, sem antes deixar de dizer que o pescador deverá conhecer muito bem o pesqueiro onde irá tentar a sorte.

O “pescar devagar” começa ainda em casa. A estas horas da noite, estou cheio de sono. Sem grande pressa verifico e volto a verificar a ver se não me esqueço de nada. Opto pela simplicidade, levo o essencial, pelo que se me esquecer de algo, será com certeza algo que me impossibilita de pescar.

Já ao volante, continuo sem grandes pressas, a madrugada é sempre palco dos acontecimentos mais estranhos. Pessoal mais festivo a vir da noite a ocupar as duas faixas de rodagem de forma aleatória, pessoal de bicicleta sem qualquer iluminação, várias espécies de animais que vagueiam na noite e que de repente saltam para a nossa frente como cães, gatos, coelhos, raposas e até javalis, enfim, o mar não sai do sítio, não é por demorar mais dez minutos a chegar que saio do meu ritmo defensivo.

auto-radio

Carro estacionado, antes de seguir para o pesqueiro e já equipado, olho para a área em volta do carro não vá algo ficar esquecido ali pelo chão. Nem todos têm a sensatez de encontrar e não levar. O carro fica no sítio melhor iluminado, por razões que nem precisarei enunciar.

Chegado ao pesqueiro, desligo a lanterna, que só voltará a ser ligada em caso de peixe, troca de amostra ou sair do pesqueiro. Se há algo que evito é ligar a lanterna, e quando tenho que o fazer é virado para terra, para que a luz não dê na água, excepto quando experimento uma amostra nova e quero ver como trabalha. De igual modo não ilumino em direcção aos olhos dos outros pescadores e muito menos dirigir a lanterna em direcção a quem sai do pesqueiro para observar se levam ou não peixe consigo. Vou à pesca pelo peixe que está na água e não pelo peixe dos outros.

Se me aproximo de alguém para dois dedos de conversa, antecipo a minha aproximação com a lanterna ligada mas a apontar para o chão. A lanterna ligada evita pregar um daqueles sustos caso a pessoa tenha o mesmo problema que eu e ouvir mal e não dê pela nossa chegada. Aquele “boa noite” pode realmente parecer algo terrível quando pensamos que estamos ali sozinhos.

Concentrando-me agora na pesca, e não ignorando o facto de que diferentes condições exigem amostras diferentes, a minha tendência será para trabalhá-las de uma forma lenta. Ou seja, independentemente de quase todas as características apresentadas pela amostra, recolho-a a uma velocidade lenta. Há no entanto uma característica que depende ainda da amostra e que terá grande importância, que é a velocidade de recolha necessária para que esta trabalhe convenientemente. Dou especial preferência a amostras que animem bem em recolha lenta, isto porque, aposto em recolhas mais lineares, sem grandes mudanças bruscas de direcção e velocidade, quase como que a facilitar a tarefa ao peixe de acertar no alvo.

Uma das razões de pescar assim, é crer que principalmente à noite há que dar tempo ao peixe. A detecção da presa, neste caso a nosssa amostra, poderá ser mais demorada, o próprio ataque poderá levar mais tempo a acontecer, enfim são crenças que podem nem sempre estar certas, mas em algumas ocasiões já terão feito a diferença.

Outro pormenor a que dou importância quando pesco à noite, ou seja, em 99% das vezes que vou à pesca, é o tamanho da amostra, e talvez contrariamente ao senso comum, eu prefiro amostras mais pequenas dos 12 aos 14 centímetros, excepção feita caso esteja a pescar com vinis, em que por vezes chegam às 7” (cerca de 17 centímetros) . De noite, penso que a visão será dos sentidos menos usados pelo robalo, pelo que a detecção da presa se fará pelas vibrações emitidas por esta. Será mais fácil um robalo abocanhar uma amostra de dimensões mais reduzidas e conseguirmos assim uma boa ferragem, do que uma amostra maior. Sendo que o robalo não se servirá tanto da visão mas sim de mecanismos que detectam as vibrações da presa, não serão três ou quatro centímetros que tornarão uma amostra mais ou menos detectável pelo menos de uma forma significativa, mas na hora da ferragem poderá a meu ver tornar os resultados diferentes. Este facto torna-se ainda mais importante se pescamos com vinis, em que apenas existe um anzol, pelo menos nos que uso e nos quais não coloco qualquer tipo de “assist”. Como já disse antes, pesco também com vinis que chegam às 7”, mas apenas se achar que apresentam características para que o tamanho não se torne problema, tal como serem extremamente flexíveis e o contacto com este não provoque desvios bruscos do mesmo levando a que o robalo falhe a zona do anzol.

As cores das amostras dependerão em muito das condições do pesqueiro na altura, e por isso não as vou considerar, pois daria muito que falar… talvez noutra altura. Quanto ao “rattling” ou a sua ausência, não o mencionei pois não tenho uma ideia fundamentada acerca do assunto.

Um aspecto que para mim se torna bastante importante, e quando temos companhia, é sem dúvida a entreajuda. Se de dia, por vezes tirar um peixe pode-se tornar complicado, então de noite a probabilidade disso acontecer aumenta. Não é fácil controlar peixe e mar durante a noite, pelo que o olhar atento de um companheiro torna-se valioso, ainda para mais a pescar da praia em que estamos ao alcance de algum mar mais atrevido. E quando finalmente o peixe sai, comemora-se o facto em conjunto. O peixe é de quem o apanha mas a captura é de todos os que nela intervêm. Não é por acaso que mais de metade dos robalos que apanhei este ano, não fui eu que lhes meti o “grip”… o meu “muito obrigado” ao “homem do grip” 🙂 .

E já ia publicar o artigo sem referir a forma como vejo o uso do “leader” na pesca nocturna… seja em fundo de pedra ou seja em fundo de areia, opto sempre por usar “leader”. Isto deve-se ao facto de se por alguma razão o fio passar nas fateixas e embrulhar, ser possível na maioria das vezes voltar a ter tudo em condições sem sequer ligar a lanterna, devido à facilidade de manuseio que há do fio de que fazemos o “leader” em relação ao multi filamento que enche a bobine do carreto consequência da diferença de diâmetros entre eles , tornando possível resolver estes enleios apenas pelo tacto.

robalo3

Bem… e agora que já capturei um suposto robalo, ligo novamente a lanterna e abandono satisfeito o pesqueiro. Arrumo tudo na bagageira do carro e lanço um último olhar em redor a ver se não fica nada por ali esquecido. Para uma última verificação, dirijo os faróis do carro para o sítio de onde saí a verificar se fica algo por ali esquecido, e após isso sigo para casa. Se possível ainda vou recuperar um pouco do sono perdido!

 

 

 

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