O windguru… acertou?

O Windguru é uma ferramenta que há muitos anos utilizo, desde os tempos em que me dedicava à caça-sub, passando pelo mergulho e até para me livrar das “molhas” nas voltas de BTT no inverno. E claro, uso e abuso do Windguru para a pesca.

O objectivo do Windguru é apenas um, mostrar-nos de forma legível e concisa, uma remessa de resultados provenientes de uma previsão, que foi calculada por um ‘modelo de previsão’. Embora o Windguru possa fazer algumas melhorias aos resultados, o ‘grosso’ do trabalho é executado por ‘super computadores’ (algumas destas plataformas está entre as mais potentes do mundo), que executam modelos meteorológicos alimentados por uma enorme quantidade de dados, alguns provenientes de outros modelos, e nos fornecem as tão desejadas previsões.

O Windguru permite fazer algumas melhorias aos resultados, usando funcionalidades como por exemplo a ‘correcção do vento’ . Esta funcionalidade permite que sejam aplicadas percentagens para mais ou para menos, à velocidade do vento consoante a sua direcção, de forma a que a previsão seja o mais próxima do real. Tal modificação pode ser necessária se o local do nosso interesse tem por exemplo um vale atrás de si, e que como sabemos irá influenciar a velocidade do vento à sua passagem. E o dito vale, pode ser um relevo que o modelo não está a levar em conta, daí a necessidade para o ajuste.

Se repararmos na designação dos modelos, estas apresentam-se como ‘GFS 27km’ ou ‘WRF 9km’. São apenas dois exemplos que servem para falar dum pormenor dos modelos, a sua resolução. Quando se diz ‘GFS 27km’ estamos a falar dum modelo que faz uma divisão da área abrangida, segundo uma grelha formada por quadrados com as medidas 27 x 27 km. Isso mesmo, cada lado tem 27 km. Dentro que cada quadrado haverão várias estações meteorológicas que, com outras fontes de informação como satélites, fornecem os dados para os modelos processarem a previsão. E por aqui se vê, que para certos locais dum mesmo quadrado, por estarem mais perto das referidas estações poderão ter previsões mais precisas do que outros. Embora, nem sempre se verifique, a previsão para determinado local poderá ser mais precisa, quando processada por um modelo de melhor resolução (quadrados mais pequenos).

Na imagem que se segue, um exemplo de duas previsões completamente diferentes para o mesmo dia e local. Pode-se observar que para terça-feira, e em termos de chuva, os dois modelos produziram resultados diferentes. Neste caso, o GFS 27km (que calcula a previsão para todo o mundo) apresenta períodos de chuva, enquanto o WRF 9km que é um modelo mais restrito (para a Europa apenas), não prevê qualquer chuva. As resoluções dos dois modelos são bastante distintas uma da outra.

WG-gfs-vs-wrf

Para tentar dissipar as dúvidas, vou comparar a previsão do WRF 9km com a previsão de outro modelo também para a Europa e com uma resolução aproximada, o ICON 7km, que se pode observar de seguida. Como se vê, este modelo também não prevê qualquer queda de chuva, e será com esta ideia que irei “não vai chover”. Mais tarde saberei até que ponto será verdade 🙂

WS-wrf-vs-icon

O que se passa com o vento passa-se igualmente com a ondulação. A previsão que o Windguru fornece é a ondulação na zona, e não a altura das ondas que vão estar a quebrar na praia que seleccionamos . Já ouvi muitas vezes afirmações do género “O Windguru dava 2m e estavam quase 3”.Em muitos casos, não é o Windguru que estava errado mas sim a nossa interpretação do que é mostrado na previsão.

Isto porque, uma ondulação de ‘x’ metros com período de 8s não produz na praia, ondas do mesmo tamanho que uma ondulação de ‘x’ metros e período de 16s. Uma ondulação de ‘x’ metros de noroeste, provavelmente não produz ondas do mesmo tamanho que uma ondulação de ‘x’ metros mas vinda de sudoeste. Uma ondulação de ‘x’ metros de oeste acompanhada por vento fraco de oeste, não produz ondas na praia, com o mesmo tamanho que uma ondulação de ‘x’ metros de oeste mas com vento de este a soprar a 50km/h.

Felizmente, não vou ter que dizer o que produz, pois isso dependerá também em grande parte da morfologia do fundo nessa praia. É tarefa para cada um observar e chegar às suas conclusões nos seus pesqueiros de eleição. E quanto mais o fizer, melhores serão as suas interpretações das previsões e mais estas lhe parecerão acertadas.

Mas basta pensar em qualquer praia por este país fora, e em quantas vez já viram ondas a fechar a praia por completo de uma ponta a outra, e como mesmo tamanho em todas as secções. Poucas certamente, e acontece geralmente na maré vazia. O normal será ter vários pontos em que as ondas começam a quebrar (aquilo que no surf se chamam ‘picos’), e não quer dizer que quebrem ondas de tamanho igual em todos os ‘picos’, e ter também vários canais onde não quebram ondas ou simplesmente quebram muito mais pequenas. No entanto, e apesar de todas estas diferenças já na praia, a ondulação que vem por fora é a mesma. A praia é que molda essa ondulação que entra e lhe atribui as características finais.

Até porque as ondas não são todas iguais e embora hajam praias com óptimos fundos a produzirem ondas que parecem fotocópias umas das outras, elas diferem em tamanho. A previsão que nos é dada pelo Windguru é algo como a altura média de 1/3 das maiores ondas. Basta pensar que se medirmos 2 ondas, uma com 1.5m e outra com 2m temos uma altura média que é 1.75m, uma altura que nenhuma das ondas tem exactamente, mas que como previsão não seria um valor muito “enganador”.

Falei à pouco do ‘período’. O período das ondas não é mais do que a diferença de tempo entre a passagem duas cristas, se tomarmos esta parte da onda como referência. Quanto maior o período, mais massa de água a onda tem, e por isso mais potente será e maior será a força do mar que se verifica no fundo, e haverá a tendência à formação dos conhecidos “enchios” que por vezes vêm buscar à praia os mais desprevenidos. Como curiosidade, o período das ondas num tsunami chega a atingir 1h, e uma onda pode movimentar uma massa de água com muitos quilómetros de comprimento. É um exemplo extremo, mas óptimo para perceber a diferença entre o que aparece numa previsão e o que realmente se vê na praia. Um tsunami devido à sua ‘física’, passa despercebido em alto mar, e o que é uma onda de 1m onde a profundidade é de 4000m, transforma-se numa onda de 4 a 5 metros a uma profundidade de 10m.

Outro pormenor é a origem das ondas. Estas podem ser originadas mais perto do pesqueiro, por ventos muito fortes, e acho que já muitos terão ouvido a expressão “não estivesse este vento e o mar nem mexia”, ou podem ter origem em tempestades muito distantes. São ondas, que pelo facto de terem muita energia conseguem viajar longas distâncias. Estas ondas formam aquilo a que se chama ‘swell’.

Na prática, e em termos de tabelas existentes na versão grátis do Windguru, destacam-se os seguintes:

GFS 27km: embora a sua resolução possa levar a resultados não tâo precisos como por exemplo o WRF 9km, é o único modelo que permite uma previsão para os próximos 7 dias em intervalos de 3h. É executado 4 vezes por dia. Para a previsão sobre o estado do mar usa a informação do modelo NWW3 50km, que por sua vez tem tabela própria e que pode ser consultada isoladamente. Logo, é um modelo bom para no inicio da semana ter já uma ideia de como poderá estar o mar no fim de semana seguinte. E digo “ter já uma ideia” porque certezas tão cedo é impossível e a previsão muitas vezes no dia seguinte já é outra. Este é um modelo para todo o mundo e de origem americana.

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WRF 9km: Permite saber a previsão para os próximos 3 dias, representada em intervalos de 1h. É também de origem americana e para o nosso país é usado o WRF para a Europa. Não apresenta informação sobre o estado do mar. Cada vez uso menos esta tabela visto que de há uns meses para cá o Windguru passou a disponibilizar o modelo ICON 7km.

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ICON 7km: É um modelo também para a Europa e de resolução melhor que o WRF 9km, e ao contrário do GFS ou do WRF é de origem Europeia. A previsão apresentada é também para os próximos 3 dias e em intervalos de 1h. Para muitos locais apresenta dados básicos do modelo EWAM 5km, que é um modelo apenas para previsão do estado do mar. Caso, se queira ir mais ao pormenor quanto ao estado do mar, pode-se consultar a tabela do EWAM 5km isoladamente.

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Espero que este texto, possa deixar mais claro o uso do Windguru e a interpretação das previsões que nos apresenta, de modo a formarem uma imagem do que poderá ser o pesqueiro daí a uns dias. Consultar o Windguru, sem considerar que se tratam de previsões para a zona do local que seleccionamos, e não para as dezenas de metros onde as nossas amostras irão pescar, só conduz a uma grande probabilidade de pensarmos uma coisa e nos sair outra. É preciso saber o que a previsão mostrada para a zona do local seleccionado provocará no sitio especifico onde estaremos.

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